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Poesia: O Lutador

  • 8 de ago. de 2017
  • 1 min de leitura

O lutador

Lutar com palavras

é a luta mais vã.

Entanto lutamos

mal rompe a manhã.

São muitas, eu pouco.

Algumas, tão fortes

como o javali.

Não me julgo louco.

Se o fosse, teria

poder de encantá-las.

Mas lúcido e frio,

apareço e tento

apanhar algumas

para meu sustento

num dia de vida.

Deixam-se enlaçar,

tontas à carícia

e súbito fogem

e não há ameaça

e nem há sevícia

que as traga de novo

ao centro da praça.

[...] Lutar com palavras

parece sem fruto.

Não têm carne e sangue...

Entretanto, luto.

Palavra, palavra

(digo exasperado),

se me desafias,

aceito o combate. [...]

O ciclo do dia

ora se conclui

e o inútil duelo

jamais se resolve.

O teu rosto belo,

ó palavra, esplende

na curva da noite

que toda me envolve.

Tamanha paixão

e nenhum pecúlio.

Cerradas as portas,

a luta prossegue

nas ruas do sono.

Carlos Drummond de Andrade. In Claro enigma.

Como Drumond, sigo lutando com as palavras, e não dou conta. São muitas, e elas vêm de toda parte, até no silêncio por elas sou derrotado. Tento ser agradável, uma amizade quem sabe..., mas não sou suficiente e insistente sigo e prossigo, na esperança de encontrar a perfeita, a lisonjeira palavra que se renda a esse servo e amante que sem ela não pode viver.RC


 
 
 

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